Realidade Diminuída, Ecoaecoa Coletivo (2010, RJ)


PRIMEIRA RESIDÊNCIA DO PROJETO DE CURARODRIA EME >>
Alissa Gottfried | Duque de Caxias/RJ | 6 a 17 de Setembro de 2010







Silvia Leal é proponente do projeto EME>> premiado pelo edital Conexão Artes Visuais 2010.

Conexão Artes Visuais é um programa da Funarte/MinC que viabiliza com patrocínio da Petrobras, a realização de festivais, salões de arte, mostras, palestras, seminários, debates, oficinas, mapeamentos, publicações e exposições, entre outras ações de fomento às artes visuais em todo Brasil.

EME>>, Estúdio Móvel Experimental, é uma residência móvel de pesquisa integrada em meio ambiente e sustentabilidade, entre arte, ciência e tecnologia. O projeto tem duas funções principais: seu design ser ecológico, isto é, desenvolver a máquina para que seja coerente ao meio ambiente e abrir espaço para artistas desenvolverem ações artísticas em sítios específicos. Este projeto é direcionado como uma plataforma interdisciplinar de pesquisa com foco na Mata Atlântica e sustentabilidade.


Os artistas e pesquisadores residentes no EME>> visitarão alguns municípios do estado do Rio de Janeiro também como festivais de arte, mídia e exposições. Uma de suas funções é alcancar público por meio de intervenções urbanas, publicações, documentação e interação utilizando plataformas de novas mídias como internet e redes sociais. Através deste projeto multidisciplinar pretende-se enfatizar a conscientização ambiental, histórica e artística do Estado do Rio de Janeiro.
As residências EME >> aconteceram em setembro de 2010 com 3 artistas convidados e um coletivo britânico:


Alissa Gottfried, Romano, Beatriz Lemos e Active Ingredient (UK).



“Realidade Diminuida” é um trabalho que envolve oficinas e intervenções numa comunidade satélite do bairro Jardim Gramacho em duqie de Caxias/RJ. As atividades da residência incluem um programa de rádio, uma produção literária e publicação impressa, um mapa semântico no site do projeto Fronteiras Imagiárias e Culturais - FIC do Coletivo i-Motirõ e a produção de uma maquete a partir de discussões sobre a re-utilização do lixo de forma criativa e funcional. Haverá uma exposição dos trabalhos na comunidade para os alunos, parentes e moradores. Todas as etapas do projeto serão documentadas e poderão ser acompanhadas via blog do projeto de curadoria Estúdio Móvel Experimental - EME >>  emedata.blogspot.com.

    Alissa é arte educadora popular e atualmente integra o coletivo i-Motirõ ministrando cursos de cultura digital com software livre em escolas públicas, eventos, ONG´s e Pontos de Cultura. Está criando a editora educadora Ecoaecoa com livros artesanais com histórias libertárias e licença copy left de forma indendente usando software livre, com a qual atua na rede Cultura Digital, Cultura Viva, Metareciclagem e Ação Grio assim como com Pontos de Cultura, Escola pública, projetos sociais, artistas, comunidades e crianças em situação de periferia cultural como um canal de comunicação, difusão e resistência da cultura e sabedoria popular.

    Na mesma reportagem, constava que “após três décadas de uso do local para o despejo do lixo da região metropolitana do Rio de Janeiro, o governo carioca decidiu que, em 2007, desativaria o aterro". Desativação que só ocorreu em , levando à saturação do aterro sanitário.

A Rádio Pipa >> Produzido por Alissa Gottfried com jovens da comunidade do Bairro Esqueleto, Duque de Caxias foi transmitida pela Web-Rádio Kaxinawá. Apresentando o material para Prof. Mauro Costa e seus alunos da ‘Aulas de rádio – Educação e Comunicação: Rádio I’. Parte do currículo da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, como disciplina eletiva universal (para todos os cursos, da FEBF e outras unidades da UERJ).

Após a apresentação de Alissa sobre o seu trabalho em Duque de Caxias, o grupo de pesquisadores escutaram o rock Tcheco: A Gente Plástica do Universo. E foi discutido o texto apresentado no XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Caxias do Sul, RS – 2-6 de Setembro 2010: Rock´n roll e a Revolução do Veludo na Tchecoslováquia, de Mauro José Sá Rego Costa.

https://soundcloud.com/ecoaecoacoletivo/1radiopipaokprograma1fumaca

    Jardim Gramacho é um bairro do município de Duque de Caxias/RJ onde está localizado numa área de mangue que é impactada pelo maior aterro sanitário da América Latina onde foi filmado o filme "Estamina". O local recebe, por dia, mais de 7 mil toneladas de lixo provenientes de mais dois municípios da Baixada Fluminense e também da cidade do Rio de Janeiro.

Em dezembro de 2006, assim era caracterizado o bairro em reportagem da Agência Brasil:
Jardim Gramacho possui 20 mil habitantes e bolsões de miséria – 50% da população sobrevive de reciclagem. Sem saneamento básico, as pessoas moram em barracos de madeira e papelão e em palafitas.

Relato visual do processo criativo Realidade Diminuída pela autora e equipe de produção:







Foto por Alissa Gottfried - Mangue do Jardim Gramacho 2010
 













































e-livreto Rádio Pipa







Mapa Multimídia publicado no site fronteirasimaginarias.org, do projeto Fronteiras Imaginárias e Culturais - FIC do Coletivo i-Motirõ integrado por hacker/artistas/artivistas do RJ.


RPG Comunativo: Fundamento do Solar Punk na Prática de RPG

    É possível afirmar que o RPG Comunativo atua como um projeto fundador e precursor de um modelo de RPG alinhado à estética e filosofia do Solar Punk no contexto brasileiro da arte-educação. Enquanto o Solar Punk (um subgênero da ficção científica que foca em futuros sustentáveis, verdes e descentralizados) é predominantemente literário e visual, o RPG Comunativo o traduz em práxis coletiva. O jogo baseia-se na Ecosofia de Guattari e utiliza a utopia como método, instigando os jogadores a criarem ativamente soluções de baixo custo (Low Tech) e comunitárias para problemas ambientais e sociais reais (o oposto da tecnologia distópica do Cyberpunk). O seu foco em Mídia Livre, Metareciclagem (como no projeto MiMoSA) e na autopoiese (a capacidade da comunidade de criar a própria vida e história) estabelece um formato de jogo onde a narrativa principal não é a sobrevivência ou o conflito, mas sim a interdependência, a regeneração do território e a construção de um futuro próspero e ecológico com recursos reciclados e criatividade coletiva, encarnando assim os princípios mais profundos do Solar Punk.



Reflexões críticas sobre o projeto Realidade Diminuída em diálogo com estudos sobre Arte Contemporânea:

    O trabalho "Realidade Diminuída" é um projeto de residência artística do Estúdio Móvel Experimental (EME>>) realizado em Jardim Gramacho (Duque de Caxias/RJ), centrado na arte, sustentabilidade, re-utilização de lixo, e intervenção social em uma comunidade periférica.

    Com foco em intervenções urbanas, ações artísticas e a conscientização ambiental/social exige referências que abordem a Arte Conceitual (prioridade à ideia), a Arte relacional/ambiental (foco no local e na participação) e as estéticas engajadas/descoloniais e subversivas da tecnologia e artemídia. O projeto "Realidade Diminuída" da Ecoaecoa Coletivo, revela uma prática de ecologia da mídia e de subversão da tecnologia de vigilância/aumento em favor da escuta territorial e da ficção transformadora.


  O nome "Realidade Diminuída" é um contraponto direto à "Realidade Aumentada" (Augmented Reality), que busca sobrepor camadas digitais de informação ao mundo físico. A Ecoaecoa, em vez de aumentar a realidade com dados digitais frios, propõe um processo de diminuição (ou filtragem/escuta) que realça o que é invisível, intangível ou ignorado: o som, a memória, a ficção e o corpo como sensor.



O projeto opera em um ciclo de 3 etapas que inverte a lógica tecnológica usual:
Escuta da Palavra e do Invisível

    O projeto começa com uma "alfabetização com palavras recicladas" e a pergunta central: "Que palavra elas escolheriam falar sobre esse lugar?" [00:24]. A palavra escolhida, "fumaça" (no contexto de Gramacho, provavelmente relacionada à queima de lixo ou de cobre para venda), é um elemento físico invisível ou fugaz que denota uma profunda problemática social e ambiental.



A Pipa como Hiperlink, dispositivo de interrogação e diálogo e Rádio Comunitária.

    Escolhe-se com as crianças a partir das palavras que elas falam sobre o Gramacho, a palavra "fumaça" que é escrita em uma pipa que é solta no céu [00:42]. A pipa que é um brinquedo popular foi transformada em arte a partir do momento que passa a ser feita com materiais como estrutura de guarda-chuva descartado, plástico transparente, fita isolante preta e fita sinalizadora como rabiola, para virar um "hiperlink no mapa interativo" que funciona como um dispositivo de interrogação pública na comunidade e por consequência uma rádio comunitária [00:58]. Isso desmaterializa o hardware e usa a poesia para gerar dados e diálogo, subvertendo a seriedade da tecnologia de coleta de dados para uma experiência de navegação e geração de conteúdo para transmissão local promovendo o empreendedorismo social, educomunicação e educação ambiental através da Arte Contemporânea .



A ficção como utopia e apropriação simbólica de presente como projeto de futuro

    O projeto culmina na "Rádio Pipa", uma história ficcional baseada na realidade de crianças de Gramacho, onde os jovens autores se colocam no futuro como personagens capazes de transformar suas vidas [01:07]. Eles criam um futuro onde são professores acadêmicos, mestres de obras e biólogos, transformando o lixão do Gramacho (a "rampa") em escolas e projetos ambientais e de moradia.

    A ficção nete trabalho não é entendida como fuga da realidade mas sim a reinvindicação da capacidade de pensar em como queremos nossa realidade e o que podemos fazer para realizá-la a partir da prática da escrita e reescrita do mundo (no sentido freiriano). Ao construir futuros possíveis, os participantes do projeto de intervenção, não são meros tarefeiros como no projeto do artista Vik Muniz, "Lixo Estraordinário" (que acontece na mesma época também no Gramacho). Mas sim protagonistas de uma apropriação simbólica e de uma elaboração coletiva de um futuro comunitário onde se planeja um programa de ações que vão além das limitações do presente e trazem a visão e leitura do que não está explicito ou foi mascarado pelo modelo social opressor e excludente (aqui podemos fazer uma referência a caixa preta do Flusser para a violência simbólica como caixa preta social). Assim, Realidade Diminuída é, paradoxalmente, a que aumenta a percepção da realidade e das violências simbólicas, a imaginação e pensamento crítico e a capacidade de intervenção no real através da artemídia.


Interpretação Conceitual

ConceitoRealidade Aumentada (RA)Realidade Diminuída (RD)
FocoSobrepor informação digital ao físico.Filtrar o visível para ressaltar o invisível (som, fumaça, memória).
AparelhoHardware de ponta (smartphones, óculos).Pipa, sucata, dispositivo de interrogação e diálogo, o corpo humano (sensor para navegação), gravador de áudio, transmissor de rádio.
Objetivotecnologia high tech, obsolescência programada consumo de dados.tecnologia low tech, filosofia software livre, Gambiarra, Faça você mesmo, apropriação da realidade, humanização dos dados, criação de narrativa e transformação social.
ResultadoNova camada de informação.Nova camada de leitura da realidade e utopia (pensar e criar o futuro), autonomia e apropriação simbólica da realidade.


RPG Comunativo como "Think Tank Comunitária e Ecosófico"

    É possível afirmar que uma edição do jogo RPG Comunativo possui características e desempenha funções análogas às de um Think Tank (laboratório de ideias ou centro de pesquisa aplicada), embora sua natureza seja primariamente artística, educativa e comunitária, e não estritamente política ou econômica.

    Um Think Tank é essencialmente uma organização que realiza pesquisa e análise aprofundada sobre problemas específicos (políticos, sociais, econômicos) para gerar soluções práticas e influenciar políticas públicas. A relação de equivalência se sustenta na função e nos métodos do projeto RPG Comunativo quando compartilha como elementos centrais:



Pesquisa e Leitura de Mundo (Análise)

    O projeto Ecoaecoa não se limita à imaginação, mas começa com uma imersão crítica na realidade local, usando métodos de pesquisa rigorosos:

- Pesquisas Científicas e Leituras de Mundo: O jogo exige, como princípio freiriano, a "leitura do mundo" e a análise das problemáticas territoriais (ambientais, sociais, econômicas). O uso de notícias jornalisticas de canais locais de comunicação, pesquisas científicas e referências filosóficas (como a Ecosofia de Guattari e as três ecologias) funciona como a base analítica e teórica de um Think Tank.

- Diagnóstico de Problemas: A etapa de identificação das palavras-chave da comunidade (como "fumaça" no caso da "Realidade Diminuída") é um diagnóstico que mapeia as questões urgentes do território.



Escrita na Realidade e Criação de Projetos (Geração de Soluções)

  A principal função do RPG Comunativo é transformar a análise crítica em propostas concretas de futuro, o que é o objetivo final de um Think Tank.

   Geração de Modelos (Utopia como Meta): O RPG cria um espaço seguro para a elaboração de "utopias" e "futuros prósperos e possíveis". Essas utopias se transformam em "personagens transformadores da realidade local" com funções específicas (professores, biólogos, mestres de obras). O jogo funciona como um simulador para gerar modelos conceituais de intervenção.

    Publicação e Ação: A publicação de livros (multimídia) e o desenvolvimento de projetos reais (como a MiMoSA, rádio comunitária) são o equivalente às "publicações de policy papers e implementação de programas-piloto" de um Think Tank. O conhecimento gerado não fica enclausurado, mas é devolvido à sociedade como material de ação.



Diferença Fundamental: A Natureza do Agente a retomada e apropriação de Agência

A distinção reside na estrutura e no agente da mudança:

CaracterísticaThink Tank TradicionalRPG Comunativo
EstruturaFormal, hierárquica, financiada (geralmente por governo, fundações ou corporações).Informal, coletiva, artística e pedagógica (coletivo, Ponto de Cultura, escolas).
Agente da MudançaEspecialistas, acadêmicos, policymakers.Crianças, jovens e a comunidade, atuando como autores e protagonistas.
FocoInfluenciar a alta política e o mercado.Autopoiese (criação da própria vida) e transformação microssocial (o território).
    Portanto, o RPG Comunativo é uma versão de Think Tank de base, comunitário e ecosófico. Ele democratiza o processo do Think Tank, quebrando a "Caixa Preta" da expertise acadêmica para torná-lo uma prática coletiva de "leitura e reescrita do mundo" acessível a todos propondo uma apropriação do conceito e trasformando a tecnologia metodológica em um modelo de "Think Tank Cidadão" onde a arte e a educação se unem à pesquisa para gerar soluções locais e autonomias criativas.



Relação com ideias da crítica sobre arte contemporânea:

    O projeto Realidade Diminuída e a residência EME>> em Jardim Gramacho representam um ponto crucial de encontro entre a arte contemporânea engajada e a filosofia da técnica e da comunicação, especialmente quando confrontamos o trabalho com as ideias de Vilém Flusser sobre a Caixa Preta da Fotografia.
]

Ação Criativa como resistência ao modelo da sociedade da obsolescência programada e de consumo, que consome a autonomia de gerenciamento de recursos, de tempo e de vida e a capacidade de leitura crítica e filosófica da vida.

    O cerne do projeto em Gramacho, com a re-utilização do lixo e a intervenção urbana, se encaixa na atitude proposta por Flusser para resistir à automatização da existência.

    Para Flusser, a "caixa preta" (máquina fotográfica, mas extensível a qualquer aparelho tecnológico ou sistema burocrático, como o aterro sanitário) funciona através de um "programa" que pré-determina as possibilidades de ação do usuário. Viver em função de imagens ou textos é uma forma de idolatria e textolatria, que aliena o ser humano de seus próprios instrumentos.

    O projeto Realidade Diminuída atua como um ato de "jogar contra o aparelho" (Flusser), que é a única forma de liberdade na sociedade pós-industrial. Flusser (1985, p. 98) afirma que a liberdade do fotógrafo consiste justamente em “jogar contra o aparelho”, sendo este ato o que caracteriza a prática dos “fotógrafos experimentais” ao forçarem a produção de uma imagem fora do programa.

    A transformação do lixo (produto final do sistema de descarte e do aparelho urbano) em maquetes funcionais ou ações artísticas (rádio, intervenção) é a tentativa de forçar o aparelho socioeconômico de Gramacho a produzir informação nova e significado que não estava em seu programa original (descarte e miséria).



Da Ideia à Relação: A Desmaterialização no Contexto Social

  A matriz teórica do EME>> encontra suporte direto nos movimentos artísticos desmaterializados da sua bibliografia.


Arte Conceitual e Ideia

    O projeto valida o princípio de Sol LeWitt de que "A ideia em si, mesmo que não seja feita visualmente, é tanto uma obra de arte quanto qualquer produto final." A residência (EME>>) é, antes de tudo, uma ideia de plataforma interdisciplinar e intervenção, com a execução (maquete, rádio, mapa semântico) sendo secundária à proposição conceitual.

    Arte Relacional e Intervenção: O trabalho rejeita a contemplação passiva em favor da ação e da experiência, seguindo a crítica à arte-objeto feita por artistas brasileiros como Hélio Oiticica e Lygia Clark (presentes em Escritos de Artistas Anos 60 70). A intervenção no site-specific de Gramacho, usando materiais locais e a participação dos moradores, cumpre a demanda por uma arte que se torna ambiente e proposição relacional.

    Estética Descolonial: A intervenção na "periferia cultural" de Duque de Caxias, como uma zona de "bolsões de miséria" e "sabedoria popular", é crucial. Este é o "desprendimiento" (desligamento) de que fala Walter Mignolo (presente em Arte y estética en la encrucijada descolonial II), onde a estética emerge de uma luta contra a matriz colonial de poder, afirmando o valor da experiência imediata e dos saberes locais em oposição aos modelos globais.

"Non-site" é um conceito de arte conceitual desenvolvido pelo artista Robert Smithson, que se refere a uma composição de elementos naturais, como pedras e areia, recolhidos de um local específico (o "site") e expostos em um ambiente interno, como um museu. Essa instalação é acompanhada por mapas e fotografias do local original, criando uma representação tridimensional e abstrata daquele espaço, embora não se assemelhe fisicamente a ele.            vs. Non-site: Um "site" é uma obra de arte que se integra à paisagem natural, enquanto o "non-site" é a representação dessa paisagem (ou de uma parte dela) em um espaço fechado, como um museu.
Características do Non-site: A instalação é composta por materiais coletados no local de origem e acompanhada de elementos documentais como mapas e fotografias. A ideia é apresentar uma perspectiva tridimensional que se separou do todo original.
Propósito: O "non-site" busca representar um local físico através de uma metáfora tridimensional, muitas vezes abstrata, e explorar a relação entre arte, paisagem e documentação.

...Fugindo das generalizações (o que Ricardo Basbaum critica como a generalização da Geração 80 por meio de slogans como "prazer, rebeldia, alegria":

É interessante destacar que a ausência de uma leitura crítica em contato direto com as novas obras não prejudica a repercussão do fenômeno da Geração 80. De fato, as ideias que acabam consagrando-se como representativas do trabalho desses artistas desempenham um papel altamente eficiente como slogans, frases de efeito, chamarizes sugestivos, a um só tempo sedutores e transgressores, fluindo através dos meios de comunicação de massa: prazer, rebeldia, alegria, espírito libertário, ocupação de novos espaços, o efêmero, arte não cerebral etc. Bastante ilustrativo é o título do artigo da revista Manchete, de 18 de junho de 1984: "Transvanguarda: o pop e o punk explodem nas telas" . Torna-se necessário reconhecer que esta adjetivação apresenta alto grau de eficiência, ao destacar de imediato a nova produção da produção anterior - e "Geração 80" é um slogan eficiente, mas, na falta de outra dimensão crítica mais consistente, transforma-se em frágeis conceitos, sujeitos ao consumo desgastante da mídia. (BASBAUM, Ricardo_Pintura dos anos 80 algumas observações críticas)
Posicionamento Ético-Social (Nova Objetividade Brasileira/Artivismo):

    Trecho/Melhoria Sugerida: Caso o trabalho seja engajado, deve ser contextualizado na tradição brasileira de tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos. Hélio Oiticica definiu o objetivo da Nova Objetividade como a necessidade de fundamentar a vontade construtiva geral no campo político-ético-social, o que implicava uma "volta ao mundo" e uma participação ativa do espectador


sensorial corporal", a outra que envolve uma participação "semântica". Esses dois modos de participação buscam como que uma participação fundamental, total, não-fracionada, envolvendo os dois processos, significativa, isto é, não se reduzem ao puro mecanismo de participar, mas concentram-se em significados novos, diferenciando-se da pura contemplação transcendental. Desde as proposições "lúdicas" às do "ato", desde as proposições semânticas da palavra pura "às da palavra no objeto", ou às de obras "narrativas" e as de protesto político ou social, o que se pro- cura é um modo objetivo de participação. Seria a procura interna fora e dentro do objeto, objetivada pela proposição da participação ativa do espectador nesse processo: o indivíduo a quem chega a obra é solicita- do à contemplação dos significados propostos na mesma esta é pois uma obra aberta. Esse processo, como surgiu no Brasil, está intimamen- te ligado ao da quebra do quadro e à chegada ao objeto ou ao relevo e antiquadro (quadro narrativo). Manifesta-se de mil e um modos desde o seu aparecimento no movimento Neoconcreto através de Lygia Clark e tornou-se como que a diretriz principal do mesmo, principalmente no campo da poesia, palavra e palavra-objeto. É inútil fazer aqui um histórico das fases e surgimentos de participação do espectador, mas verifica- se em todas as novas manifestações de nossa vanguarda, desde as obras individuais até as coletivas (happenings, p. ex.). Tanto as experiências individualizadas como as de caráter coletivo tendem a proposições cada vez mais abertas no sentido dessa participação, inclusive as que tendem a dar ao indivíduo a oportunidade de "criar" a sua obra. A preocupação também da produção em série de obras (seria o sentido lúdico elevado ao máximo) é uma desembocadura importante desse problema. (FERREIRA, Glória. Escritos de Artistas Anos 60 70)

 

Conclusão: Realidade Re-mediada pela Arte

    Se Flusser nos alerta sobre o risco da "caixa preta" nos aprisionar em programas pré-determinados, Arlindo Machado oferece o arcabouço para entender como a arte pode usar esses próprios meios tecnológicos para abrir novos canais de experiência e consciência.


    Machado analisa como o vídeo e, por extensão, as novas mídias (como a rádio web e as plataformas digitais) criam um novo modelo estético baseado na comunicação, no fluxo e na interação, e não mais na contemplação do objeto único. O projeto "Realidade Diminuída" é a perfeita execução desta estética: não é uma exposição estática, mas um processo de difusão de informação e saberes.


“A principal característica da arte eletrônica e digital consiste em transferir o centro de gravidade da obra de arte do objeto para a comunicação e o fluxo de informações.” (MACHADO, 2007, p. 110).


    O uso da Rádio Pipa e das oficinas de cultura digital com software livre em Jardim Gramacho demonstra que o projeto não apenas intervém no ambiente físico (lixo, maquete), mas também no ambiente informacional da comunidade. A arte se torna uma infraestrutura que permite aos moradores:

- Produzir seu próprio conteúdo: Ao invés de serem apenas receptores da mídia de massa que "diminui" sua realidade, os jovens da comunidade se tornam emissores através da rádio.

- Gerar resistência: O uso do software livre e da licença copyleft (mencionado sobre a editora Ecoaecoa) é uma resistência explícita aos programas e aparatos proprietários e centralizados, indo ao encontro do "jogar contra o aparelho" de Flusser, mas através das ferramentas da mídia e da tecnologia.

    Portanto, a eficácia do EME>> reside em sua natureza midiática: é na comunicação e na transferência de informação que a realidade social e ambiental de Gramacho é re-codificada, deixando de ser um programa de descarte para se tornar um circuito de produção de sentido.


    Em suma, o projeto Realidade Diminuída é um ato de resistência criativa. Ele valida a ideia como potência máxima da arte (LeWitt), encarna a ação em oposição ao objeto contemplativo (Oiticica/Clark), afirma o valor da estética descolonial (Mignolo) e, crucialmente, utiliza as mídias e a comunicação (Machado) como o principal vetor para jogar contra o programa da caixa preta (Flusser) que relegou Gramacho à condição de periferia e aterro. Ao transformar lixo em maquetes e silêncio em ondas de rádio, o EME>> opera a des-diminuição da realidade através da arte-ação.


    Em última análise, o nome "Realidade Diminuída" pode ser lido como uma crítica irônica. O projeto não busca uma realidade menor ou alheia, mas sim a des-diminuição da realidade de Gramacho, subvertida pelo programa social do lixo. Ao decodificar a função do lixo e do local, e ao transformá-los em informação criativa através da arte e da comunicação (rádio, blog), o EME>> opera uma crítica revolucionária (Flusser) contra a opacidade do sistema, restabelecendo o diálogo e a criação de novos significados na comunidade.

    O sucesso da residência reside em sua capacidade de, através da artimanha (Flusser), reverter a entropia do aterro sanitário e da exclusão social em um ato neguentrópico¹ de arte e informação nos ajudando a responder a questão: de que forma a arte contemporânea, ao se manifestar como processo social, comunicação e infraestrutura, consegue sustentar sua autonomia crítica (em oposição à mera função social ou política) e promover a resistência descolonial da sabedoria popular, evitando a captura e a redução de sua potência ao mero programa de documentação ou à estética da pobreza para consumo global do "aparelho" e aparelhamento da tecnologia de manipulação das massas.

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¹ O termo neguentrópico (ou sintrópico) é um adjetivo que descreve a qualidade ou o processo que promove a neguentropia, ou seja, a entropia negativa. Em termos simples, algo neguentrópico é aquilo que:

Aumenta a Ordem e a Organização: Tende a criar estrutura, complexidade e informação dentro de um sistema.
Contraria a Desordem: Atua contra a tendência natural do universo de se mover em direção ao caos, à homogeneidade e à perda de energia útil, que é regida pela entropia.



Desdobramentos e participação e diálogo da Ecoaecoa no 4º projeto de residência EME >> Diálogo de árvores do coletivo Active Ingredient (UK):


Diálogo entre Árvores: Sensor Humano e a Matéria-Som


    A parte mais radical do projeto é a redefinição de sensoriamento. Num desdobrando e participação e parceria em outro projeto apresentado no mesmo vídeo de residências do Estúdio Móvel Experimental >> EME >> , o vídeo mostra um kit de sensores móveis sendo usado para registrar dados ambientais (pressão, decibéis, temperatura, umidade) em uma árvore no Jardim Botânico no RJ [08:06]. Em seguida, o projeto propõe uma "atividade de sensor humano" onde as pessoas usam seus corpos, experiências e memórias para sentir e quantificar esses mesmos dados [09:23].

    O Corpo como Aparelho: no projeto Diálogo de Árvores que teve a participação da Ecoaecoa na assistência de arte e tecnologia buscou-se humanizar os dados [09:30], utilizando o corpo como um kit sensor. Isso também dialoga diretamente com a crítica à Caixa Preta de Flusser, tirando o poder de mediação e interpretação da realidade pelo aparelho tecnológico e BIG TECH e promove a experiência humana subjetiva e coletiva sem atravessadores e vigilâncias.



Referências:

MACHADO, Arlindo. Arte e mídia. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1985. (Ou edição mais recente disponível).

FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (Org.). Escritos de artistas: anos 60, 70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

GOMEZ, Pedro Pablo (Comp.). Arte y estética en la encrucijada descolonial II. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2014.

LEWITT, Sol. Sentenças sobre Arte Conceitual. In: FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (Org.). Escritos de artistas: anos 60, 70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006. p. 119-122.

Mídia Digital e Online

A IMAGEM | Filosofia da caixa preta – Vilém Flusser. [Vídeo]. In: Café Filosófico. 1 vídeo (22 min). Publicado em 22 jan. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zqBSAPQdrkE. Acesso em: 23 nov. 2025.




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