MiMoSA Grio
Esse trabalho sobre o projeto MiMoSA (Mídia Móvel Sociedade Anônima), da Ecoaecoa Coletivo integrada aos movimentos Ação Grio, Cultura Viva, Cultura Digital e Metareciclagem, revela uma prática de contra-tecnologia e ressignificação, que se alinha de forma contundente com as críticas à técnica e ao aparelho desenvolvidas por Vilém Flusser em sua obra Fotografia da Caixa Preta: Por uma Filosofia da Fotografia.
A Subversão da Caixa Preta
O projeto MiMoSA, um computador móvel construído a partir de sucata tecnológica, é mais do que um ato de reciclagem; é uma performance filosófica, artística e educativa. O coletivo Ecoaecoa propõe:
- Desautomatização: Tirar o computador de sua função convencional (isolado sobre uma mesa, fechado) e transformá-lo em um dispositivo móvel, comunitário e interativo (como rádio comunitária ou centro didático).
- Protagonismo do Usuário: O objetivo explícito é fazer com que a máquina se torne parte da criação da vida do indivíduo e da comunidade, e "não o contrário" (ou seja, a máquina dizendo como o usuário deve se comportar).
- Ênfase na Produção: A MiMoSA é uma ferramenta para gerar conteúdo (tutoriais, jingles, histórias) e para documentar o próprio processo de uso e manutenção, tornando-o transparente e pedagógico.
Relação Crítica com Vilém Flusser
Em Fotografia da Caixa Preta, Flusser argumenta que o aparelho fotográfico (e, por extensão, qualquer aparelho tecnológico) é uma "caixa preta" que opera com base em um "programa" específico, transformando o usuário em um "funcionário" que apenas executa as potencialidades pré-estabelecidas pelo design tecnológico.
O trabalho da Ecoaecoa pode ser lido como uma tentativa de abrir e reescrever a Caixa Preta do computador, atacando os três pilares flusserianos:
O Ataque ao Aparelho e à Caixa Preta
Para Flusser, a "caixa preta" é o invólucro ideológico que oculta o funcionamento interno do aparelho (seja a câmara ou o computador), impedindo o usuário de criticar o programa embutido.
Ecoaecoa na Crítica Flusseriana:
Ao construir a MiMoSA com sucata e de forma visivelmente improvisada/aberta, a Ecoaecoa desmistifica o computador. Eles transformam o aparelho de uma caixa tecnológica mágica e inacessível em um objeto de intervenção. A sucata remete à materialidade da tecnologia e expõe a obsolescência programada, um ato de crítica política que Flusser veria como essencial para a libertação do usuário.
A Subversão do Programa
O Programa de um aparelho, segundo Flusser, é o conjunto de regras que limita a liberdade do fotógrafo a uma série de "possibilidades" pré-determinadas. O programa de um computador comercial é tipicamente voltado à produtividade capitalista e ao consumo passivo.
Ecoaecoa na Subversão do Programa:
O coletivo promove a "ressignificação da máquina". Eles impõem um antiprograma à MiMoSA: o uso focado na colaboração, na educação popular e na criatividade desfuncional. A máquina, originalmente projetada para fins individuais ou corporativos, é forçada a operar em um novo programa: o da comunidade e da práxis (a união de teoria e prática).
A Transformação do Funcionário em Criador
Flusser diferencia o Funcionário (aquele que apenas clica no botão, executando o programa) do Criador (o indivíduo que tenta ir contra ou além do programa, buscando o improvável).
Ecoaecoa e a Libertação do Funcionário:
O projeto MiMoSA visa justamente resgatar a autonomia do usuário. Ao envolver crianças e comunidades na produção de tutoriais sobre fazeres manuais (como as bonecas Abayomi) ou na criação de uma rádio, o coletivo transforma o consumidor passivo de tecnologia em um autor e educador. O objetivo de que a máquina não dite o comportamento é a expressão máxima da busca por um usuário que transcenda o mero "funcionário" do aparelho.
Conclusão Crítica
O trabalho da Ecoaecoa é um exemplo prático e performático do caminho para a libertação tecnológica sugerido por Flusser. Não basta "reciclar" o lixo; é preciso reescrever o código cultural da tecnologia. Ao abrir a Caixa Preta e expor o aparelho em sua sucata, e ao impor um antiprograma de uso comunitário e criativo, o coletivo Ecoaecoa realiza um ato de "leitura crítica do mundo" tecnológico, buscando o que Flusser chama de liberdade dentro da necessidade do universo técnico.
Ao utilizar o próprio lixo da sociedade de consumo (a sucata) para criar um novo tipo de imagem técnica (o conteúdo da MiMoSA) que não é uma mera representação, mas uma intervenção direta na realidade social.
Comentários
Postar um comentário